quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Meu corpo, meu corpo torto, está todo em cansaço. Meus pés, talvez existam, estão apáticos para o chão. O que acontece no mundo mortal é paradoxo carnal e absoluto. Não consigo andar pelos corredores sem sentir uma dor funda. Sei que o que tem o nome do medo anda por essas mesmas vias. Isso me aterroriza. O espelho diz minha cara com gosto de sono. Meu corpo todo se retrai antes de sair para o lá. Meus olhos meio apagados estão prestes a sangrar. De ódio. De mim mesmo? talvez. Sei que meus pensamentos estão tirando parte de meu corpo. Corpo e pensamento são a mesma dor. O que poderei fazer? Morrer de olhos abertos e boca seca semi-aberta como se fosse gritar algo no instante seguinte. Talvez eu grite, sim, eu deveria cometer isso. O grito rasga vidas e isso me preocupa. Eu, cujo corpo pretende ser em vermelho, está a doer no antegrito. Meu nome é cegueira. Meu corpo é boca com hálito da morte.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Tenho febre e faz noite lá fora. Sinto meu corpo todo ardente, meu plasma inflamado, palpitando tão não-perceptivelmente, porém sempre e tanto. Estou em dias difíceis, finalmente. Com medo de morrer. Meus olhos, que estão grandes, correm para ver o que precisa ser visto. Meu corpo, minha pátria, está com medo de me não ter. Talvez o dia esteja triste e doente e, por isso, eu fale essas coisas. Atuei em tantas peças criadas por mim nesses tempos, já não sei o que era o que. Caminhei à noite, ontem estava caminhando pela Voluntários turva procurando: procurar. Dentro disso, não sei se meu nome é inteiro Christian. Mas não importa: dividir é um artifícios para fracos. Hoje eu estou fraco. Pensando na vida, enfim, ela está larga como um planeta ou uma estrela em múltiplas explosões contíguas. Mas, senhoras e senhores membros do Juri, vê-la, isto é, à vida, é uma troca de pele contínua e em dor. Estou sem medo de doer, por ora. Tenho meus olhos e eles enxergam e isso é meu modo de dar sentido, voz. Penso até quando isso vai servir. Quando a falta de sentido vai fazer sentido que, mesmo desnecessário, me cai como uma faca só corte. Eu falo como eu falo. Escrever é ouvir os Deuses. Ler é falar por eles.

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Olhar sem olhos
dói como não existir:
Como andar sem tudo,
andar entre tudo, e sorrir?

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Minha falta de ar é meu medo da morte.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Um Sonho

Na verdade passo por aqui para lhe contar um sonho que tive essa madrugada. O que posso adiantar é que o sonho foi tão real, tão cheio de sensações que acordei pensado na hipótese do sonambulismo, ou da hipnose. Acontece que eu me encontrei a sós com uma mulher, a qual nunca havia conhecido. Meus braços, sem que eu pudesse sequer pensar, quando a mirei nos olhos castanhos de madeira, mergulharam por trás dela e a elevaram para fora do chão. Levei-a para o leito, branco e frágil. Daí para frente, o sonho me pareceu meio nebuloso. Cheio de incertezas e jogos com a linguagem dos corpos. Sei que a dança toda me pareceu afundanda em contentamento e coisas indizíveis. Acordei assustado, ainda sentindo sua mão puxar meus cabelos e suas unhas encravadas em minhas costas. Levantei aturdido e perplexo, a respiração acelerada, o coração batendo forte. Sei que ainda pude sentir seu perfume e lembrar a textura de sua pele. Mas acordei. Acordei triste por estar acordando. Olhei o real a minha frente. E senti pena dele. Eu escolho viver o sonho. Para o sonho. Dentro do sonho. Sonhadora e lucidamente.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A Alma do Corpo

Tenho o desejo de morder um pescoço e vê-lo sangrar, sentir com a ponta da língua a textura do corte, o desenho do gosto e subir as mãos nos cabelos e segurá-los com força, com uma quase dor e ouvir um gemido doce, baixo e íntimo de quem sofre de um prazer escarlate e arranhar a pele de umas costas brancas e fazer isso, tudo isso ao mesmo tempo com a intensidade de uma explosão ou de água fervente. Estou eu e estou último. Ardendo nas pontas dos dedos, lambendo o céu dentro deles. A alma e o corpo. Porque eu sou todo um magma que precisa consumir. Vermelha e incontrolavelmente.

Meu amor é perto da morte.

domingo, 31 de agosto de 2008

Quase sem título

O amor começa pelas mãos. Já viste? E a vontade das mãos começa pelos olhos. Basta por hoje. Embora saiba que esteja fora do meu escarlate habitual, sinto que descobri mais uma parcela de mim. Isso pede arte. Que tal uma escultura viva de dois corpos de mãos dadas? Meu deus, o mundo é muito mais vasto do que imaginamos...

domingo, 3 de agosto de 2008

Arte Infernal

Fazer arte é como fazer sexo sobre uma poeira branca e leve e ser aplaudido por pessoas da alta sociedade. Alguém aí já viu Laranja Mecânica? Minha raiva vermelha aumenta cada vez que eu me vejo dentro disso. Sei que terão muitos que me acharam feio e sujo, mas é da própria carne humana ser feio e sujo e cheirar mal. Inventaram o perfume francês, o creme facial e suas diversas promoções, claro. Não me pergunte quando o ser humano deixou de ser humano. Tenho plena noção de que o que escrevo é a minha festa na prisão. Talvez eu seja mesmo covarde, talvez não. Sei que quero sangrar e se eles não me permitem: eis aqui meu manifesto em letras vermelhas. Escrevo porque me reconheço como animal.

domingo, 20 de julho de 2008

Sobre Literatura

Sim, literatura é incomodar. Isso chegou ao meus ouvidos sujos de mundo pelas palavras de uma mulher de nome Rayssa Galvão. Sem dúvida. Apesar de ser assim como meu corpo é, nunca formulei dessa forma. Literatura é para incomodar, como uma artéria entupida que causa derramento de sangue sobre toda uma vida dentro de uma massa quente e cerebral, como aconteceu com meu avô. Sim, por isso gosto do vermelho também. Ou uma azia que causa vômito. A vida é vulgar e sangra. Sim, literatura pode ser mesmo isso...